chfort.icu
Trabalhei 5 anos sem folgas pela minha filha. E ela disse que eu fui um mau pai. Pensei muito antes de escrever isto. Não porque a história seja bonita. Pelo contrário. Porque tenho vergonha. Não quero vir para aqui fazer-me de vítima. Cada um tem os seus problemas. Mas talvez algum homem me entenda. Principalmente aquele que passou a vida a pensar que, se trabalha, leva dinheiro para casa e não anda metido em cafés e copos, então já é um bom pai. Chamo-me Luís Pereira. Tenho 45 anos. Vivo em Vila Nova de Gaia, perto do Porto. Trabalho com as mãos desde os 18. Obras, remodelações, azulejo, pladur, pintura, cargas e descargas, às vezes armazém. Onde pagam, eu vou. Tenho a minha mulher, Ana, e uma filha, Mariana. Ela tem agora 15 anos. A Ana trabalha numa padaria perto de casa. Levanta-se cedo, porque o pão não se põe sozinho na montra, o café não se tira sozinho, e de manhã no Porto há sempre gente a entrar para pedir um pão e uma meia de leite como se fosse lei. O salário dela não é grande coisa. É honesto, mas é pouco. Às vezes faz turnos a mais quando alguém falta. Cresci numa família onde os homens sempre trabalharam com as mãos. O meu avô assentava pedra e azulejo. O meu pai passou a vida nas obras. Ele tinha umas mãos que diziam tudo: onde trabalhou, quantos anos trabalhou, quantas vezes ficou calado quando lhe apetecia mandar tudo abaixo. Desde pequeno, o meu pai dizia-me: “Luís, quem trabalha não passa fome.” E eu acreditei nisso. Nunca sonhei ser grande chefe. Não queria uma casa com piscina. Não queria carro caro, relógios, restaurantes, fotografias no Dubai. Eu queria uma vida simples. Mulher, filha, casa, carro, frigorífico cheio, contas pagas e domingo em casa. Parecia-me um sonho justo. Pequeno. Normal. Quando a Mariana nasceu, alguma coisa mudou dentro de mim. Olhava para ela pequenina, vermelhinha, com aqueles dedos minúsculos, e pensava: “Ela vai ter melhor do que eu tive.” Na minha infância faltou muita coisa. Não porque os meus pais fos