chfort.icu
Achei que tinha apagado esta foto. Mas ficou ali. Encontrei-a por acaso enquanto limpava o telemóvel. A memória estava outra vez cheia: vídeos dos miúdos, talões antigos, screenshots de transferências MB Way, fotos de obras que mandava ao chefe para mostrar que o trabalho estava feito. E no meio de tudo aquilo estava ela. Na foto estou sentado na carrinha velha do trabalho. A farda toda suja, a cara molhada, os olhos vermelhos, pó de cimento preso às alças do fato. No ombro tenho um pequeno símbolo de Portugal que o meu filho me ofereceu depois de uma festa da escola. Estou a olhar para a câmara com uma cara como quem pergunta a si próprio: “Luís, como é que chegaste a este ponto?” Tinha a certeza de que tinha apagado aquela foto nessa mesma noite. Mas ficou. E talvez ainda bem. Às vezes uma pessoa precisa de ver o fundo para não se esquecer de onde conseguiu sair. Chamo-me Luís Pereira. Tenho 35 anos. Vivo no Porto, mais para os lados de Campanhã, embora tenha trabalhado muitas vezes em Gaia, Matosinhos e Maia — onde há obra, vai-se. Não sou escritor. Escrevo como sei. A vida toda trabalhei mais com as mãos do que com palavras. Na verdade, tudo isto já vinha a acumular há muito tempo. Por fora, a nossa vida parecia normal. Eu trabalhava na construção, a minha mulher, a Ana, limpava quartos num hotel pequeno perto da Trindade, os miúdos iam para a escola e para o jardim. Não tínhamos uma vida bonita dessas das redes sociais, mas tínhamos uma vida normal: trabalho, casa, contas para pagar, Lidl, às vezes um café depois do turno. Comecei a trabalhar aos 18. Primeiro armazéns, depois pequenas remodelações, depois obras a sério. Sei assentar azulejo, carregar gesso, fazer demolições, montar andaimes, pintar, furar, cortar, arranjar o que os outros estragam. Não tenho um currículo bonito, mas se for preciso trabalhar, eu trabalho. E foi precisamente por isso que me custou tanto chegar quase ao ponto de não ter dinheiro nenhum. Eu não ficava em casa sem fazer nada, não ga