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Fui despedido por causa de um erro. Depois de vinte anos a trabalhar com as mãos. Aprendi a trabalhar antes sequer de saber falar bem sobre aquilo que sentia. Acho que em Portugal muitos homens crescem assim. Ninguém te senta à mesa para te explicar a vida com palavras bonitas. Dão-te uma coisa para segurar, carregar, trazer, levantar. Primeiro és só um miúdo a atrapalhar, depois começas realmente a ajudar. O meu avô era pedreiro. O meu pai trabalhou em obras praticamente a vida toda. Desde pequeno lembro-me do cheiro a cimento, pó, madeira molhada e café barato dentro do termo. O meu avô dizia sempre: — Se fizeste mal, faz outra vez. Se deste a tua palavra, cumpre. Se recebeste dinheiro, o trabalho tem de ficar feito. O meu pai dizia de forma mais simples: — Aprende a trabalhar com as mãos. As mãos não te falham. Na altura eu acreditava mesmo nisso. Chamo-me Luís Pereira, tenho 35 anos e sou do Porto. Vivo com a minha mulher, a Marta, e com a nossa filha, a Inês. Ela tem oito anos. Temos uma vida normal. Não somos ricos, mas também nunca fomos pessoas de andar sempre a queixar-se. Vivíamos num apartamento pequeno perto de Campanhã. Não era no centro, não tinha vista para o rio nem uma varanda bonita daquelas para turistas. Era um apartamento normal: frio no inverno, abafado no verão e com o vizinho de cima a arrastar cadeiras como se estivesse a construir mais um andar. Mas era a nossa casa. Tínhamos um Renault Mégane velho que já devia estar reformado há anos. Mas pegava, andava, levava-me para as obras, a Marta para o trabalho e a Inês para casa da avó, em Gaia. Às vezes fazia barulhos estranhos, às vezes acendia uma luz qualquer no painel, mas eu dizia sempre: — Ainda aguenta. E aguentava. A Marta trabalhava num hotel, nas limpezas. Trabalho duro, mas certo. Eu trabalhava numa pequena empresa de remodelações de casas antigas e apartamentos para arrendamento, turismo ou novos proprietários. No Porto agora há muito disso. Casas lindas por fora e completamente podr