chfort.icu
Três anos a fazer tudo certo. E mesmo assim acabei sem nada. E foi aí que tudo mudou. Chamo-me Luís Pereira. Tenho 35 anos. Sou de Vila Nova de Gaia, do outro lado do Douro, aqui ao lado do Porto. Nunca fui pessoa de escrever estas coisas. Muito menos falar da minha vida na internet. Sempre achei que cada um já tem problemas suficientes. Mas contei esta história a algumas pessoas pessoalmente… e ouvi sempre a mesma resposta: “Luís, escreve isso. Pode ajudar alguém.” Por isso aqui vai. Quem eu sou Cresci em Gaia — não naquela parte bonita onde os turistas tiram fotos à ponte Luís I e bebem vinho do Porto junto ao rio. Cresci num bairro normal, onde as pessoas saem cedo para trabalhar, chegam a casa cansadas com sacos do Lidl e tentam não pensar muito na próxima conta para pagar. O meu pai trabalhou a vida toda num armazém em Matosinhos. Quando as costas começaram a falhar, foi para vigilante num parque de estacionamento. A minha mãe limpava uma escola. Família portuguesa normal. Nunca passámos fome, mas também nunca houve almofada nenhuma. Era viver mês a mês: trabalho, contas, almoço de domingo em casa dos meus pais. Nunca fui para a universidade. Aos 18 comecei como ajudante num armazém. Aos 22 fui para as obras. Aos 27 já fazia de tudo: pladur, azulejo, demolições, cimento… o que aparecesse. Aos 32 já ficava responsável por pequenas equipas quando o chefe não aparecia. Vida estável. Ordenado certo. Rotina conhecida. Nunca fui de gastar dinheiro à parva. Nunca fiz férias no Algarve todos os verões. Nunca comprei telemóveis a prestações para impressionar ninguém. Andava num Renault Clio de 2012. Casa arrendada em Gaia, zona calma, sem luxos. Cozinhávamos em casa. Uma cerveja à sexta com os colegas e pronto. Vida simples. Mas achava que estava tudo controlado. Ou pelo menos pensava isso. Como era o meu mês Entravam mais ou menos 1 200 euros limpos. Às vezes 1 250 se houvesse horas extra. Outras vezes menos. Para construção, nem era mau. Renda: 720 euros. Luz, água e