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TENHO 65 ANOS. O HOMEM NA FOTO NÃO É MEU MARIDO. NEM MEU FILHO. Quando a minha filha viu esta fotografia, ligou-me imediatamente. — Mãe, quem é esse homem? E porque é que está sentada com ele num restaurante? Eu ouvi a voz dela tremer. Não era ciúme. Não era escândalo. Era medo. Porque, naquele momento, ela ainda não sabia que eu tinha passado quase três meses num lar de idosos. Sozinha. Sem dizer nada a ninguém. Nem a ela. Nem ao meu filho. Chamo-me Ilda Neves, tenho 65 anos e vivo na Covilhã. Durante 35 anos trabalhei numa fábrica de lanifícios. Quem conhece esta terra sabe: frio, humidade, turnos longos, corpo sempre de pé. Entrei nova, saí velha. As mãos ficaram grossas, as costas cansadas, mas nunca fui mulher de me queixar. Criei dois filhos praticamente sozinha. O meu marido morreu cedo, do coração. O Nuno foi para Lisboa. A Cristina foi para o Porto. Têm trabalho, filhos, prestações, a vida deles. Telefonavam-me todas as semanas. — Como está, mãe? E eu respondia sempre: — Estou bem, filhos. Tudo em ordem. Mentia. Não por mal. Mentia porque não queria ser um peso. Tudo começou com os joelhos. Primeiro era só um estalo ao levantar-me. Depois aquela rigidez de manhã, como se as pernas não fossem minhas. Eu sentava-me na beira da cama, esperava uns minutos, fazia força, e lá ia. Dizia para mim mesma: — É da idade, Ilda. Não faças drama. Mas não era só idade. Ao fim de uns meses, já não conseguia descer as escadas sem me agarrar ao corrimão com as duas mãos. O joelho direito inchava ao fim do dia. O esquerdo começou a doer também. Depois veio a lombar. Depois a anca. Cada ida ao mercado parecia uma prova. Eu saía de casa para comprar pão e voltava como se tivesse atravessado a Serra da Estrela a pé. Fui ao médico de família. Olhou para mim cinco minutos, pediu exames, e depois disse: — Artrose. Desgaste. É normal na sua idade. Normal. Essa palavra caiu-me tão mal. Como é que é normal uma mulher não conseguir levantar-se de uma cadeira?