Há oito anos que limpo quartos de hotel no centro de Lisboa. Algumas pessoas gastam numa noite aquilo que eu penso duas vezes antes de gastar numa semana. Na madrugada de terça-feira, estava sentada no chão da minha cozinha em Benfica a olhar para 9.840 € no telemóvel. Atualizei a página. O número continuava lá. Chamo-me Ana Ribeiro, tenho 41 anos. E três semanas antes daquela noite tinha recebido uma carta de cobrança por uma dívida de 6.200 €. O meu salário desaparecia entre 780 € de renda, contas e pequenos empréstimos que comecei a usar para pagar outros empréstimos. Nos últimos meses cheguei a vender o único anel de ouro que me restava da minha mãe. Depois chegou a carta: 6.200 € em dívida. Foi aí que percebi que já não estava apenas apertada de dinheiro. Estava presa. Nessa noite não consegui dormir. Perto das duas da manhã comecei a fazer scroll no Facebook só para desligar a cabeça. Foi aí que encontrei um post de um motorista do Porto sobre uma aplicação chamada Spin Rush. Ignorei. Dez minutos depois voltei atrás. Li os comentários. Pessoas comuns. Mulheres da minha idade. Homens cansados. Todos a dizer a mesma coisa: o dinheiro tinha mesmo aparecido. Pensei: “Já perdi a dignidade, já perdi o anel da minha mãe, já perdi a capacidade de dormir sem ansiedade. O que é que mais 20 euros vão tirar de mim?” Descarreguei a aplicação. A mão tremia quando introduzi os dados do cartão. Depositei 20 euros — quase tudo o que me restava até ao dia de receber. Os primeiros minutos foram uma montanha-russa pequena e cruel. Ganhava quinze, perdia vinte. Ganhava oito, perdia doze. Estava quase a fechar a aplicação quando o ecrã escureceu e uma grande moeda dourada surgiu no meio, a piscar a palavra “BÓNUS”. O telemóvel começou a vibrar sem parar. Os números subiram depressa demais: 180 € 640 € 1.900 € 4.300 € 7.100 € E pararam em 9.840 euros. Atualizei a página. O valor continuava lá. Atualizei outra vez. Continua. Carreguei em “Levantar” com o dedo a