Quando vi 9.840 euros no ecrã, as mãos tremeram tanto que o telemóvel quase me caiu no chão. Fechei os olhos com força, abri outra vez, e o número continuava lá, imóvel, como se estivesse a gozar comigo. Mordi o lábio até doer. Chamo-me Ana Ribeiro, tenho 41 anos, e passei a maior parte da minha vida a acreditar que milagres eram coisa de quem ainda tinha esperança. Eu já não tinha nenhuma. Vivo em Lisboa, num quarto pequeno em Benfica. Há oito anos que limpo hotéis no centro da cidade. Quartos de gente que chega de férias, que ri nos corredores, que deixa toalhas molhadas no chão e restos de comida nas mesas de cabeceira. Eu entro depois deles. Mudo lençóis suados, limpo sanitas, passo o pano em espelhos onde vejo uma mulher cada vez mais cansada a olhar de volta. As costas doem-me quase todos os dias. Os joelhos estalam quando me agacho. Às vezes, no quarto de arrumos, fecho a porta e choro em silêncio durante dois ou três minutos, só para conseguir voltar a respirar. O meu salário desaparece antes do fim do mês. Setecentos e oitenta euros de renda. Depois a luz, a água, o passe, o telemóvel. E as dívidas. Pequenos empréstimos que fui pedindo para pagar outros empréstimos. Uma espiral lenta e silenciosa. Nos últimos tempos comia quase sempre o mesmo: arroz, ovos, pão do dia anterior. Cheguei a vender o único anel de ouro que me restava da minha mãe. Entreguei-o num penhor sem conseguir olhar a mulher nos olhos. Há três semanas chegou a carta. Empresa de recuperação de crédito. Dívida total: 6.200 euros. Se não pagasse, avançavam com processo judicial. Senti o estômago fechar-se como se alguém tivesse posto uma mão lá dentro e apertado. Naquela noite não dormi. Fiquei deitada no escuro, a ouvir os carros lá fora e o meu próprio coração a bater demasiado depressa. Pensei em quantas vezes já tinha feito contas na calculadora do telemóvel só para concluir a mesma coisa: não chego. Nunca chego. Por volta das duas da manhã abri o Facebook sem saber bem porquê. Só q