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Numeiro — se estás a ler isto, vai-te foder! Chamo-me Miguel, tenho 23 anos. Vivo em Coimbra com a minha mãe e a minha irmã mais nova, a Carolina. O meu pai saiu de casa quando a minha irmã nasceu, por isso ainda andava na escola quando comecei a trabalhar para ajudar em casa. Agora trabalho nas obras como servente. Alugamos um T2 velho por 670 euros por mês. Não tem ar condicionado e no verão é quase impossível estar lá dentro. O dinheiro mal dava para o essencial. Mesmo com as mãos e as costas a doerem, continuava a fazer horas extra para conseguir mais uns trocos. Uma noite, depois de mais um dia de trabalho, cheguei a casa e logo percebi que algo se passava com a minha mãe. Ela contou-me que a tinham “mandado embora” porque acharam que já era velha demais e que já não aguentava o ritmo de antes. O ordenado dela era pequeno, mas para nós fazia diferença. A partir daí, ficou tudo por minha conta. Passei a noite à mesa, calculadora na mão, a fazer contas. Renda, comida, contas… Estava a começar o ano letivo e a Carolina precisava de cadernos novos, sapatos e outras coisas para a escola. Não conseguia perceber como é que íamos sair daquilo. Um dia a Carolina pediu-me para lhe comprar uma mochila nova com umas orelhinhas brilhantes para a escola. Disse que quase todas as amigas tinham uma. Custava 30 euros. Tive de dizer que não. Disse-lhe: “Talvez para o mês que vem.” Ela só respondeu baixinho: “Está bem, Miguel” e foi para o quarto. Ela percebia perfeitamente que não havia dinheiro. O fecho da mochila antiga já não funcionava. A minha mãe prendeu o fecho com um clip. E eu não conseguia deixar de pensar que nem 30 euros tinha para lhe comprar uma coisa que para os outros miúdos era normal. Um gajo com quem trabalho mostrou-me uma coisa no telemóvel durante a pausa. Disse-me: “Miguel, não podes continuar a trabalhar tanto. Já dá pena olhar para ti.” Ele tinha visto o Numeiro — aquele gajo que anda sempre a mostrar carros caros, relógios e