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🛑 Chamo-me Mariana. Tenho 35 anos. Moro em Lisboa, num sótão. Alugo um quarto. Não é um apartamento — é um quarto no sótano de um casal de idosos reformados. A casa é velha, com humidade e cheira a mofo quando chove. Trabalho como auxiliar de ação médica numa lar de idosos em Benfica. Os turnos são longos: manhã, tarde, às vezes noite. Faço todo o trabalho pesado: limpar, dar de comer, mudar fraldas, levantar doentes. É exaustivo. Ganho cerca de 1.050 € brutos por mês. Depois dos descontos e Segurança Social ficam uns 850-900 €. Parece razoável? Não é. Aqui vão as minhas despesas reais: Quarto no sótão: 480 € (inclui água e luz, mas não internet) Internet + telemóvel: 55 € Transportes (passe mensal Carris/Metro): 70 € Comida: 260 € (quase nunca compro carne nem peixe fresco, está muito caro) Netflix (partilhado): 7 € Roupa e sapatos: 20 € (tudo de segunda mão no OLX ou Feira da Ladra) Medicamentos: 15 € (para dores de cabeça e alergias — ir ao médico demora meses) Imprevistos: 35 € Ficam: 280-320 €. Parece algum dinheiro. Não é. Porque esses 280-320 € têm de chegar para tudo o que esqueci e para tudo o que pode acontecer amanhã. E amanhã chega sempre. Estou sozinha há três anos, desde que deixei o meu ex. Não me batia, não gritava. Simplesmente deixou de me ver. Tornei-me como um móvel. Fui-me embora sozinha. Desde então estou sozinha. Chego a casa lá para as 22:30 se o turno correr bem. Se for pesado, 23:30 ou mais. O sótão é frio e húmido. A escada range. Os donos são simpáticos mas muito rigorosos. Não me queixo — tenho medo que me peçam para sair. Não tenho para onde ir. Entro no quarto. Pequeno, húmido, com uma janelinha minúscula. Uma cama, um armário velho e uma mesinha. Em cima, um laptop antigo que demora cinco minutos a ligar. Fervo água. Faço um chá barato. Fico a olhar para a parede. E penso. Penso que tenho 35 anos. Sem poupanças. Se o laptop avariar, não consigo comprar outro. Se adoecer e faltar turnos, não consigo pagar a renda. Quase não tenho baixa