baseugd.pics
Às sete menos um quarto estava de joelhos no chão de um corredor de escritório no centro. O esfregão na mão e o cheiro a lixívia na pele. Não, espera. Vamos começar pelo fim. Ontem às 23:14 recebi uma notificação da Caixa: 10.840,00 €. Chamo-me Ana Ferreira. Tenho 37 anos e moro na Amadora. De manhã faço limpezas em escritórios no centro, à tarde sou caixa no Pingo Doce aqui ao lado. Dois contratos a tempo parcial. Nenhum sabe do outro. Tenho uma filha, a Beatriz, que tem 9 anos. O pai foi-se há três anos — de vez em quando manda alguma coisa, quando lhe convém. Entre as limpezas, a caixa e o abono que recebo pela Beatriz, entram-me um pouco mais de 900 euros por mês. A renda leva 580. Depois o Navegante, a luz, a água — mais uns 110 que desaparecem antes de os ver. As compras tento mantê-las abaixo dos 180, entre o Pingo Doce e o mercado, com a lista escrita no caderno da Beatriz. Sei de cor quanto custa cada coisa: a massa 0,99 o pacote, a polpa de tomate 0,65, os ovos, o leite. Entro, pego o que está na lista, saio. No fim do mês, se correr bem, ficam-me uns 100 euros. Para tudo o resto. Quando a Caixadirecta vai abaixo de 50, aperta-me qualquer coisa no peito. Ao domingo ponho o caldo verde ao lume às seis da manhã, antes de a Beatriz acordar. É o único momento da semana em que não penso nos números. Na semana passada a Beatriz disse-me — quase a sussurrar, como se tivesse medo de pedir — que a amiga dela, a Sara, tinha começado ballet. «Mãe, eu também posso?» 40 euros por mês. Eu disse: logo vemos, filhota. Essa frase. Logo vemos. Uso-a quando não consigo dizer não mas também não consigo dizer sim. Ela sabe. Percebemo-nos desde que tinha cinco anos, ela e eu. Foi fazer os deveres. Sentei-me na cozinha e abri a Caixadirecta. 52 euros. Era o que sobrava da semana — a renda, as contas, tudo o resto já tinha ido embora. Em cima da mesa estava uma conta da EDP — 138 euros — ainda fechada, há quatro dias. Não conseguia abri-la. É parvo, mas enquanto n