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Cuidem dos cães Olá a todos, o meu nome é Mita. Tenho 33 anos, vivo na Amadora, nos arredores de Lisboa, e estou a criar sozinha a minha filha de sete anos, a Markela. O meu ex-marido fugiu para França há três anos, refez a vida lá e já nem se lembra que tem uma filha. Para conseguirmos sobreviver, trabalho como empregada de mesa em turnos esgotantes de 12 horas num restaurante-pizzaria perto da estação, aguentando clientes arrogantes por causa de algumas gorjetas miseráveis. Metade do meu salário vai direto para o arrendamento de um rés-do-chão antigo, mas carrego um fardo muito mais pesado nos ombros. O meu pai passou a vida inteira a manter um pequeno abrigo privado para cães abandonados na periferia da cidade. Era o trabalho do coração dele; resgatava todos os animais indefesos que encontrava. No ano passado, o meu pai faleceu... Ele partiu e, de repente, toda a responsabilidade pelo abrigo, as boxes, os cuidados e as dívidas caíram sobre mim. Não podia fechar aquilo que ele construiu e trair a sua memória. Mas, ultimamente, cheguei à beira do abismo. Os preços da ração e dos cuidados veterinários em Portugal subiram tanto que eu já não tinha como alimentar os cães do meu pai. Os sacos de ração ficavam mais caros quase todas as semanas no supermercado, e a dívida com o fornecedor não parava de crescer. O veterinário da zona já começava a recusar passar-nos medicamentos a crédito. Sempre que olhava para os olhos famintos daqueles cães, o meu coração partia-se. Sentia que estava a falhar com o legado do meu pai. O verão na zona de Lisboa é terrivelmente quente. Os ventiladores e o sistema de refrigeração no abrigo tinham de funcionar 24 horas por dia para que os cães não sofressem golpes de calor. Quando chegou a fatura astronómica da eletricidade da EDP, junto com avisos de corte e de que o abrigo podia ser encerrado, quase me deu um vómito de puro pânico. Voltava para casa morta de cansaço, às vezes adormecia com os sapatos calçados, e à noite cho