Tenho vergonha, a sério. Sinto-me uma má mãe. Chamo-me Lúcia, tenho 31 anos e sou de Lisboa. Ainda não consigo acreditar que isto me aconteceu. Em poucos minutos ganhei 49.415 euros. Trabalho há anos como empregada de andares num hotel no centro. Faço camas, mudo roupa de cama, limpo casas de banho e puxo aqueles carros pesados de corredor em corredor, de andar em andar. No fim do turno a coluna está destruída, as mãos latejam e já quase não sinto as pernas. Chego a casa completamente rebentada. Crio o Emílio sozinha. Tem seis anos e está no 1.º ano. Separei-me do pai quando ele ainda era muito pequeno. Desde então sou eu sozinha para tudo. O dinheiro nunca chega. A renda do T2 na Amadora, a comida, o material da escola, a EDP, a água, o telemóvel, o passe Navegante… Todos os meses a mesma coisa. Mal dá para chegar ao fim. Às vezes nem isso. E o Emílio às vezes pergunta porque é que os outros miúdos têm pai e ele não. Eu sorrio, mas por dentro fico toda apertada. Sinto-me uma má mãe porque não lhe consigo dar aquilo que ele gostava de ter. Há uns dias uma das gajas do turno apareceu com um iPhone novo e a falar de férias. Perguntei-lhe de onde tinha vindo aquele dinheiro. Ela respondeu que era tudo graças a uma aplicação. Perguntei se funcionava mesmo. Parecia bom demais para ser verdade. Ela sorriu e disse: «Olha Lúcia, no início eu também duvidei. Pensei que era perda de tempo, mas mesmo assim experimentei. Foi a melhor decisão que tomei. Esta app mudou-me mesmo a vida. Agora consigo comprar coisas que antes só sonhava.» Queria saber mais, mas havia serviço e voltámos para os quartos. Acabei por me esquecer. Nessa noite, já o Emílio a dormir, vi um anúncio da mesma aplicação e decidi experimentar. Meti 50 euros — era o que tinha mais ou menos livre. No início quase nada. Depois apareceram uns ganhos pequenos. E de repente o ecrã encheu-se de bónus e multiplicadores. Quando parou, estavam lá 49.415 euros. Fiquei sentada a olhar. Não acreditava. As mã